Mais do que um modismo organizacional, o Compliance é um compromisso ético com a boa governança.
Derivado do verbo inglês to comply, significa “agir em conformidade” — mas, no universo da gestão pública e corporativa, seu sentido é muito mais amplo: trata-se de garantir que as organizações atuem com transparência, integridade e responsabilidade diante da sociedade.
No setor público, o termo ganhou força a partir da Lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção) e de seu Decreto regulamentador nº 8.420/2015, que definiram parâmetros para os programas de integridade. Desde então, compliance deixou de ser um conjunto de controles burocráticos para se tornar um instrumento de transformação cultural e institucional.
O conceito representa uma virada de chave: agir de forma ética deixou de ser uma escolha individual e passou a ser uma estratégia coletiva de sustentabilidade e confiança social.
Em outras palavras, compliance é o caminho para fazer o certo, do jeito certo, pelas razões certas.
Do setor privado à administração pública: a evolução do Compliance
A trajetória do compliance começou nas grandes corporações do século XX, especialmente no sistema financeiro norte-americano, como resposta a escândalos e crises de governança. No Brasil, sua consolidação se deu com os marcos legais que ampliaram a responsabilidade das organizações — públicas e privadas — por atos de corrupção, fraude e má gestão.
A Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016) reforçou essa exigência ao determinar que empresas públicas e sociedades de economia mista adotassem políticas de integridade, gestão de riscos e auditoria interna. Já no âmbito estadual, surgiram iniciativas de destaque, como o Programa de Integridade e Compliance do Rio Grande do Norte (Decreto nº 33.095/2023), que determinou a criação de planos de integridade e transparência para todos os órgãos do Executivo.
Esses avanços marcam um novo tempo na gestão pública brasileira: um tempo em que ética, integridade e governança se tornaram pilares indissociáveis da boa administração.
Gestores e conselheiros, mais do que cumprir normas, são chamados a liderar pelo exemplo, inspirando suas equipes a compreender que a integridade é uma vantagem competitiva — tanto para empresas quanto para governos.
Ética e integridade: o coração do Compliance público
A ética e a integridade são a essência viva do compliance. Segundo o professor Alexandre Di Miceli da Silveira (2018), a ética organizacional é a ponte entre valores e atitudes: ela define o comportamento que sustenta a confiança nas relações humanas e institucionais. Já a integridade representa a coerência entre discurso e prática — o “fazer o que é certo” mesmo quando ninguém está olhando.
No poder público, a ética vai além da moral individual: ela é um dever de ofício, um compromisso com o interesse coletivo. O IBGC (2025) reforça que a governança íntegra é aquela que busca equilíbrio entre interesses diversos, assegura transparência e cria valor sustentável para a sociedade.
Sendo assim , a ética comportamental amplia esse entendimento ao propor uma reflexão sobre o porquê das ações humanas. Ela nos convida a compreender como líderes e servidores reagem diante de dilemas éticos e de que forma o ambiente institucional pode favorecer decisões mais justas e transparentes.
Quando o comportamento ético se torna parte da cultura organizacional, a integridade deixa de ser um discurso e se torna um modo de gestão. E esse é o verdadeiro papel do Compliance: transformar valores em práticas, e práticas em confiança.
Os pilares do Compliance: a arquitetura da integridade
Um programa de compliance eficaz não se sustenta sem bases sólidas. Essas bases — conhecidas como pilares do compliance — constituem uma verdadeira arquitetura da integridade dentro das organizações. Segundo o Decreto nº 8.420/2015, esses pilares formam a estrutura mínima para que um programa de integridade seja efetivo e sustentável.
A seguir, os principais pilares e seus significados práticos para o setor público:
-
Comprometimento da Alta Administração
A liderança é o alicerce da cultura de integridade. Quando dirigentes e gestores assumem publicamente o compromisso com a ética, eles irradiam credibilidade para toda a organização. O exemplo do topo — tone at the top — inspira, orienta e legitima as ações do programa de compliance.
-
Equipe Técnica e Multidisciplinar
Integridade é um trabalho de equipe. Profissionais de áreas distintas — jurídica, financeira, auditoria, comunicação, tecnologia e gestão — precisam atuar de forma colaborativa. Essa diversidade garante uma visão sistêmica dos riscos e a criação de soluções integradas e realistas.
-
Uso de Insumos Tecnológicos
Ferramentas tecnológicas são grandes aliadas do compliance moderno. Sistemas de monitoramento, controle de contratos, gestão de riscos e auditorias digitais aumentam a transparência e reduzem a vulnerabilidade a fraudes e desvios.
-
Liderança e Gestão Colaborativa
Gestores éticos constroem ambientes saudáveis. A liderança colaborativa promove engajamento, incentiva a escuta ativa e cria um espaço em que as pessoas se sentem seguras para agir corretamente — um aspecto essencial da cultura de integridade.
-
Valores, Princípios e Normas
Todo programa de compliance precisa se apoiar em valores claros. São eles que orientam decisões e comportamentos. No setor público, os valores fundamentais são: interesse público acima do pessoal, transparência, equidade e responsabilidade.
-
Código de Conduta e Políticas de Compliance
O Código de Conduta é o documento que traduz a ética na prática. Nele, servidores e gestores encontram orientações claras sobre o que é aceitável, quais comportamentos devem ser evitados e quais são as consequências de eventuais desvios. É um instrumento de proteção à reputação institucional.
-
Treinamento e Comunicação
Integridade não se impõe, se educa. Programas de capacitação contínuos — com palestras, cursos e campanhas internas — fortalecem a consciência ética e desenvolvem competências para lidar com dilemas reais da administração pública. A comunicação clara e assertiva é a chave para consolidar esse aprendizado.
-
Controles Internos
Os controles internos garantem que as regras e processos estejam sendo seguidos corretamente. Auditorias regulares, revisões de contratos e monitoramento de riscos asseguram que a conformidade não se perca na rotina administrativa.
-
Canais de Denúncia e Investigações Internas
Nenhum programa de integridade é completo sem canais seguros de denúncia. Esses mecanismos permitem que servidores e cidadãos relatem irregularidades com confiança, anonimato e proteção contra retaliações. Mais que punir, eles servem para corrigir, prevenir e fortalecer a cultura da confiança. Cada pilar, quando aplicado de forma coerente e interligada, sustenta a governança corporativa e cria um ciclo virtuoso de transparência, ética e credibilidade.
Sustentabilidade e ESG: a nova dimensão do Compliance
O compliance contemporâneo não se limita a evitar ilícitos. Ele amplia seu alcance ao incorporar a agenda ESG (Environmental, Social and Governance), conectando a integridade à sustentabilidade econômica, ambiental e social.
Empresas públicas e privadas, como a Copergás, Neoenergia, Prodam, são exemplos desse avanço. Tais empresas reafirmam o compromisso com a ética, transparência e responsabilidade socioambiental, alinhando suas práticas à Lei nº 13.303/2016 (Lei das Estatais). Essa visão de longo prazo reforça a sustentabilidade como pilar da governança, promovendo a neutralização de emissões, o uso eficiente de recursos e o incentivo ao biometano — energia limpa e renovável.
Ao incorporar o ESG ao compliance, o setor público amplia seu impacto positivo: cria valor não apenas para os acionistas, mas para toda a sociedade. Essa é a essência da governança sustentável — aquela que entende que ética e lucro, responsabilidade e resultado, não são opostos, mas complementares.
Liderança ética e cultura de integridade: o legado da boa governança
Nenhum sistema de compliance se sustenta sem lideranças éticas e conscientes. A verdadeira transformação ocorre quando conselheiros, CEOs e gestores passam a compreender que a ética não é custo, é investimento.
Líderes inspiradores são aqueles que enxergam além dos indicadores financeiros: percebem que a credibilidade institucional é o ativo mais valioso que uma organização pode ter. Eles cultivam a confiança como se fosse um patrimônio público — porque, de fato, é.
Quando a integridade se torna parte da cultura organizacional, a governança floresce. A transparência deixa de ser obrigação e passa a ser valor. A prestação de contas se transforma em orgulho. E a sociedade, em vez de apenas cobrar, passa a confiar.
Compliance como propósito e legado
O Compliance no setor público não é um fim em si mesmo — é um meio para garantir a legitimidade, a eficiência e a sustentabilidade das instituições. Ao integrar ética, integridade e governança, ele forma um sistema de proteção e fortalecimento do Estado, promovendo o uso responsável dos recursos públicos e a entrega de resultados à sociedade.
Gestores, conselheiros e servidores são chamados a ser protagonistas dessa transformação.
Cada decisão ética é um ato de liderança. Cada política de integridade implantada é um legado. E cada avanço em transparência é um passo em direção a um Estado mais confiável, eficiente e justo.
Compliance, portanto, é mais do que conformidade:
É a expressão concreta do compromisso público com o que há de mais nobre na administração — o servir com ética, responsabilidade e propósito.
💬 Vamos conversar sobre como fortalecer a integridade na sua instituição?
A construção de uma cultura ética e sustentável começa com o primeiro passo: o diálogo.
Se você é gestor, conselheiro ou profissional público e deseja compreender como aplicar os pilares do compliance para elevar o nível de governança e transparência na sua organização, agende uma conversa conosco.
📅 Marque uma reunião personalizada e descubra como o Instituto Adriana Carla (IAC) pode apoiar sua equipe na estruturação de um Programa de Integridade eficiente e transformador.
👉 Clique aqui para agendar sua reunião e dê o próximo passo rumo à excelência ética e à boa governança.
Referências
BRASIL. Lei nº 12.846, de 1º de agosto de 2013. Dispõe sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2 ago. 2013.
BRASIL. Decreto nº 8.420, de 18 de março de 2015. Regulamenta a Lei nº 12.846/2013. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 mar. 2015.
BRASIL. Lei nº 13.303, de 30 de junho de 2016. Dispõe sobre o estatuto jurídico das empresas públicas e sociedades de economia mista. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1º jul. 2016.
RIO GRANDE DO NORTE. Decreto nº 33.095, de 27 de outubro de 2023. Institui o Programa de Integridade e Compliance do Poder Executivo Estadual. Natal, RN: Governo do Estado, 2023.
CARNEIRO, Roberto. Governança e Compliance no Setor Público. São Paulo: Atlas, 2020.
CONACI – CONSELHO NACIONAL DE CONTROLE INTERNO. Programa de Integridade e Compliance no RN. Brasília: CONACI, 2024. Disponível em: https://conaci.org.br.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA (IBGC). Sistema de Integridade: fundamentos e práticas para conselheiros. São Paulo: IBGC, 2025.
Os cinco pilares dos riscos empresariais: como gerenciá-los em um cenário econômico e de negócios desafiador. São Paulo: Deloitte, 2017. Disponível: https://conhecimento.ibgc.org.br/Paginas/Publicacao.aspx?PubId=23629&assessment=1. Acesso em: 15 out. 2025.
NAVEED, S.; SIDDIQUE, N.; UL-DURAR, S.; DE SISTO, M. Navigating Sustainable Practices in Public Sector Organizations: current themes and emerging trends. Public Administration Quarterly, v. 49, n. 3, p. 202–217, 2024. DOI: https://doi.org/10.1177/07349149241296011.
NEOENERGIA. Ética e Integridade. 2024. Disponível em: https://www.neoenergia.com/etica-e-integridade.
SILVEIRA, Alexandre Di Miceli da. Governança Corporativa e Compliance Ético. São Paulo: Atlas, 2018.ZYMLER, Benjamin. Controle da Administração Pública e Compliance. Belo Horizonte: Fórum, 2021.

