LITERACIA DIGITAL: Competências Humanas na Era da Inteligência Artificial

Instituto Adriana Carla

LITERACIA DIGITAL: Competências Humanas na Era da Inteligência Artificial

Reflexões a partir do Future of Jobs Report 2025 e da palestra ministrada na Escola de Contas e Gestão do TCE-RJ.

Vivemos em uma era em que a informação e os dados se tornaram os pilares estruturantes da sociedade contemporânea. Desde a transição do século XX para o XXI, assistimos à consolidação da chamada sociedade da informação e dos dados — um ecossistema em que governos, empresas e cidadãos se conectam, compartilham e produzem valor por meio de fluxos informacionais cada vez mais dinâmicos. Essa é uma profunda transformação: a passagem de uma cultura organizacional centrada na instituição para uma cultura orientada ao dado, na qual o indivíduo — o cidadão, o titular de direitos — ocupa o centro das decisões e políticas. 

Essa nova configuração social é impulsionada por uma economia orientada por dados (data-driven economy), marcada por tecnologias disruptivas, conectividade ubíqua e pelo fenômeno que denominamos de dataísmo: a crença de que os dados são a principal fonte de verdade e poder no século XXI. 

Nesse contexto, emergem novas vulnerabilidades — como a vigilância digital, o rastreamento de comportamentos e a exposição massiva da privacidade pessoal — que exigem respostas éticas, técnicas e regulatórias robustas. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e a Emenda Constitucional nº 115/2022, que reconhece a proteção de dados como direito fundamental, são marcos civilizatórios dessa era. Mas mesmo com legislações avançadas, o desafio persiste: como alinhar inovação tecnológica e preservação de valores humanos? É aqui que a Inteligência Artificial (IA) se impõe como o novo paradigma do século XXI. A IA deixou de ser ficção científica para se tornar a mais poderosa tecnologia criada pela humanidade — uma força capaz de aprender, decidir e criar. Impulsionada por grandes volumes de dados, poder computacional e algoritmos sofisticados, ela remodela a economia, a ciência e o comportamento humano. 

As ferramentas de IA generativa são exemplos da automação da capacidade cognitiva de produção: elas não apenas executam tarefas, mas também geram ideias, textos, imagens e soluções complexas. Isso redefine o papel do ser humano, deslocando-o do fazer técnico para o pensar estratégico, ético e criativo. Essa transição tecnológica, que costumo chamar de “novo Renascimento Digital”, impõe às organizações uma urgente necessidade de reposicionar o aprendizado, a liderança e a gestão do conhecimento. A inteligência artificial não é apenas uma tecnologia — é o espelho do nosso tempo, refletindo nossas escolhas, virtudes e falhas.

Transformações do trabalho e as tendências do Future of Jobs Report 2025

De acordo com o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, vivemos uma fase de aceleração inédita nas transformações do trabalho, com impactos diretos nas profissões, nas habilidades e nas relações produtivas. O relatório — que reúne perspectivas de mais de mil grandes empregadores globais, representando 14 milhões de trabalhadores em 55 economias — revela um dado simbólico: 44% das habilidades atuais deverão mudar até 2030. Essa não é uma estatística isolada; é uma ruptura estrutural. A ampliação do acesso digital é vista por 60% das empresas como a tendência mais transformadora da década, enquanto 86% apontam a Inteligência Artificial e o processamento de informações como as forças centrais de mudança. Essas transformações resultam da convergência entre tecnologia, economia, meio ambiente e sociedade. 

De um lado, a automação e a robótica ampliam a produtividade e redefinem funções; de outro, surgem novos papéis centrados em competências humanas — análise crítica, criatividade, empatia e decisão ética. O relatório também redefine a fronteira homem-máquina: embora a proporção de tarefas humanas deva reduzir-se até 2030, isso não significa substituição, mas amplificação das capacidades humanas. Profissões ligadas à análise de dados, IA, sustentabilidade, educação e governança digital estão em expansão, enquanto funções repetitivas tendem a declinar. 

No setor público, o impacto é duplo: modernizar estruturas e políticas, ao mesmo tempo em que se garante que a automação não aprofunde desigualdades nem comprometa direitos fundamentais. A IA aplicada ao governo pode gerar um Estado mais preditivo, eficiente e transparente — desde que ancorado em literacia digital e governança ética. Sem esses pilares, corre-se o risco de transformar inovação em exclusão. O Future of Jobs Report é, portanto, um alerta: investir em habilidades digitais e humanas não é mais uma opção; é uma estratégia de sobrevivência institucional e social.

Literacia Digital: a nova alfabetização do século XXI

A literacia digital é, sem dúvida, a competência-chave para o mundo do trabalho nos próximos anos. Destaco que ela se tornou tão essencial quanto saber ler e escrever foi em gerações passadas. Mas não se trata apenas de dominar redes sociais, ferramentas ou plataformas. Literacia digital é compreensão crítica, ética e segura da informação digital. É saber acessar, analisar e comunicar informações por meios digitais, com consciência, responsabilidade e empatia. Essa competência envolve cinco dimensões integradas: habilidades tecnológicas, cidadania digital, comunicação digital, criação de conteúdo e avaliação crítica. Em um mundo onde o conhecimento se expande em velocidade exponencial, essas dimensões determinam o sucesso individual e coletivo das organizações. A literacia digital empodera pessoas, amplia o acesso à informação e fortalece a democracia.

No setor público, ela é essencial para compreender os impactos das tecnologias emergentes em políticas, serviços e direitos fundamentais. A Taxonomia Global de Competências do Fórum Econômico Mundial reforça essa visão, ao identificar IA, Big Data, UX, cibersegurança e alfabetização tecnológica como áreas prioritárias até 2030. 

Mas o relatório traz uma nuance poderosa: o diferencial competitivo não está apenas nas hard skills, mas nas competências humanas — pensamento crítico, empatia, ética e colaboração que são inerentes às pessoas. Como costumo enfatizar, literacia digital não é sobre tecnologia — é sobre humanidade ampliada pela tecnologia. O profissional do futuro precisará falar tanto a linguagem das máquinas quanto a linguagem das pessoas, integrando raciocínio lógico, ética, criatividade e sensibilidade social.

Minha visão de futuro: investir em pessoas para vencer o desafio da IA 

O Future of Jobs Report 2025 identifica cinco competências essenciais que devem guiar os próximos anos das organizações: pensamento analítico, pensamento criativo, multilinguismo, leitura e matemática aplicada, e pensamento sistêmico. Essas habilidades são os alicerces para equilibrar inovação e responsabilidade. O pensamento analítico orienta decisões baseadas em evidências; o criativo permite imaginar soluções inéditas; o multilinguismo amplia horizontes culturais; a leitura e a matemática fortalecem o raciocínio lógico; e o pensamento sistêmico conecta tudo isso em uma visão integrada. No setor público, essas competências sustentam políticas eficazes, transparência, uso ético da IA e uma gestão mais humana e inteligente. 

Por isso, acredito que a literacia digital deve ser tratada como um ativo estratégico institucional, e não apenas uma habilidade individual. É um eixo transversal que atravessa todas as áreas — da liderança aos colaboradores. Chegou o momento de as organizações investirem em pessoas, não apenas em tecnologia. A revolução da Inteligência Artificial não será vencida por quem detém os melhores algoritmos, mas por quem forma os melhores seres humanos para lidar com as tecnologias disruptivas. O futuro das instituições dependerá da capacidade de integrar inteligência humana e artificial sob a mesma ética: a do cuidado, da transparência, da privacidade e da inovação responsável. 

Para mim é claro, “Em um mundo com máquinas inteligentes, ser verdadeiramente humano será nossa maior competência.” O desafio que se impõe é educacional, cultural e moral. E o tempo para agir é agora. 

Vamos continuar essa conversa? A transformação digital começa pelas pessoas.

Sua organização já está preparada para formar profissionais com literacia digital para a era da inteligência artificial? 

Referências

Fórum Econômico Mundial. The Future of Jobs Report 2025. Disponível em: https://www.weforum.org/publications/the-future-of-jobs-report-2025/in-full/. Acesso em: 15 out. 2025. 

Oliveira, Adriana Carla (2025). Literacia Digital: Competências Humanas na Era da Inteligência Artificial. Palestra apresentada na Escola de Contas e Gestão do TCE-RJ, 21 de agosto de 2025. Disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=o1cw6lVQU8w. Acesso em: 15 ago. 2025.

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